Uma pequena luz pode mudar completamente a maneira como uma celebração noturna é percebida. Quando uma lanterna aparece entre as mãos de uma multidão, sobe lentamente ao céu ou ilumina um caminho, ela deixa de ser apenas uma fonte de claridade. Em diferentes tradições, esse objeto pode representar reunião, conhecimento, respeito religioso ou um desejo para o futuro.
O mais curioso é que não existe um significado único para as lanternas. Cada cultura construiu seus próprios gestos e interpretações ao redor da luz. Em algumas celebrações, ela reúne famílias; em outras, expressa uma ideia espiritual. Para entender essa variedade, é preciso observar não apenas a lanterna, mas também o que as pessoas fazem com ela e o momento em que esse gesto acontece.
Quando a luz reúne as pessoas
O Festival das Lanternas na China
Na China, as lanternas ocupam um lugar especial no encerramento das celebrações do Ano-Novo Lunar. O Festival das Lanternas acontece na primeira noite de lua cheia do 15º dia do primeiro mês do calendário lunar, marcando o fim desse período festivo. A própria posição da celebração no calendário ajuda a explicar uma de suas características mais marcantes: uma noite iluminada por lanternas em um momento associado à reunião e à celebração coletiva.
O costume possui uma história longa. Registros reunidos pelo Getty Research Institute relacionam as origens do festival a práticas religiosas do período da dinastia Han, entre 206 a.C. e 220 d.C., realizadas inicialmente em ambientes ligados ao palácio imperial. Com o passar do tempo, a celebração incorporou costumes populares e passou a ocupar um espaço mais amplo na vida cultural chinesa.
Essa transformação também ajuda a entender por que a lanterna não deve ser observada apenas como decoração. O Getty associa os costumes do festival a ideias de reunião familiar e uma vida feliz. A luz aparece, assim, em um contexto no qual pessoas se encontram e compartilham uma celebração depois dos primeiros dias do novo ano.
Há algo simbólico nesse cenário. A noite, que normalmente separa visualmente as pessoas e os lugares, ganha numerosos pontos de luz. Cada lanterna pode ser pequena, mas milhares delas juntas transformam o espaço da celebração. A iluminação deixa de cumprir apenas uma função prática e passa a fazer parte da própria experiência coletiva.
Por isso, observar uma lanterna no Festival das Lanternas é também observar uma tradição na qual a luz acompanha a ideia de encontro. Ela não precisa representar uma única mensagem isolada. Seu significado está ligado ao conjunto da celebração, ao calendário, à reunião das pessoas e aos costumes transmitidos ao longo do tempo.
A luz da sabedoria na Coreia do Sul
Na Coreia do Sul, as lanternas aparecem em uma tradição com outra origem e outro significado. O Yeondeunghoe, conhecido como Festival das Lanternas de Lótus, está ligado ao budismo e se desenvolveu a partir de um ritual religioso em uma celebração que também possui forte dimensão comunitária e festiva.
A própria imagem da lanterna de lótus acrescenta uma camada simbólica à celebração. Segundo estudo acadêmico sobre o Yeondeunghoe, a luz da lanterna está relacionada à sabedoria de Buda e ao respeito por Buda. Acender uma lanterna, portanto, não é apenas iluminar um espaço durante uma festividade. O gesto está inserido em uma tradição religiosa na qual a luz possui um significado próprio.
Essa associação permite perceber uma diferença importante em relação ao Festival das Lanternas chinês. Em ambos os casos, a noite ganha luminosidade e as pessoas participam de uma celebração coletiva, mas o contexto cultural modifica o significado do objeto. A mesma ideia visual, uma pequena fonte de luz destacada na escuridão, pode estar relacionada à reunião familiar em uma tradição e à sabedoria espiritual em outra.
O Yeondeunghoe também mostra como uma prática religiosa pode adquirir novas dimensões ao longo do tempo sem perder completamente sua ligação original. O festival foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial nacional da Coreia do Sul em 2012 e, em 2020, entrou na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.
Assim, quando centenas ou milhares de lanternas de lótus aparecem durante a celebração, elas não formam apenas uma paisagem colorida. Cada uma participa de uma tradição na qual a luz funciona como uma representação de conhecimento e reverência. A beleza visual existe, mas não explica sozinha por que as lanternas ocupam um lugar tão importante.
Quando a lanterna carrega um desejo
As lanternas que sobem ao céu no Yi Peng
No norte da Tailândia, existe uma celebração em que a lanterna não permanece nas mãos de quem a acende. Ela ganha altura e desaparece no céu noturno. É o Yi Peng, uma tradição associada à cultura dos povos Lanna, na qual diferentes formas de luz fazem parte das celebrações.
Entre elas estão as khom loy, lanternas de papel que são lançadas ao céu durante a noite. Quando o ar aquecido dentro da estrutura faz a lanterna subir, o pequeno ponto luminoso começa a se afastar lentamente do grupo que o lançou. O movimento transforma a iluminação em um gesto simbólico: a pessoa não apenas acende uma luz, mas a deixa partir.
Segundo a Thailand Foundation, o Yi Peng possui uma dimensão espiritual relacionada à homenagem e ao respeito por Buda. Dentro dessa tradição, o lançamento das lanternas também é associado ao desejo de deixar para trás a má sorte e os infortúnios do período anterior e receber boa sorte no ano seguinte.
É uma imagem que ajuda a compreender por que a altura importa tanto nesse ritual. Uma lanterna mantida no chão ilumina quem está próximo. Uma lanterna que sobe passa a representar uma intenção que se distancia de seu ponto de origem. O gesto cria uma espécie de passagem simbólica entre aquilo que ficou para trás e aquilo que se deseja encontrar adiante.
O céu também modifica a experiência coletiva. Uma única lanterna pode parecer pequena quando vista isoladamente, mas várias delas formando pontos luminosos acima das pessoas produzem outra percepção. O espaço da celebração passa a ser observado em duas direções ao mesmo tempo: existe a comunidade reunida no solo e existe a luz se afastando no céu.
O Yi Peng, porém, não depende apenas das lanternas que voam. A tradição também utiliza pequenas lanternas votivas de argila conhecidas como phang prateep. De acordo com a Thailand Foundation, elas estão relacionadas à gratidão e funcionam como símbolos de iluminação e prosperidade.
Essa diferença entre as lanternas revela algo interessante. Mesmo dentro de uma única celebração, diferentes formas de luz podem desempenhar funções simbólicas distintas. Uma pode subir ao céu, outra pode permanecer acesa junto às pessoas. A luz, portanto, não possui um significado fixo: o gesto realizado com ela também faz parte da mensagem.
No Yi Peng, esse conjunto de práticas transforma a noite em um espaço de desejos, respeito e renovação. A lanterna que sobe não leva literalmente os problemas de quem a lançou, mas representa, dentro da tradição, a intenção de deixá-los para trás. É justamente essa combinação entre um gesto simples e um significado cultural mais profundo que torna a cena tão marcante.
Quando a luz acompanha uma passagem
As lanternas e os antepassados no Obon
No Japão, as lanternas aparecem em um contexto diferente. Durante o Obon, uma celebração tradicional relacionada à memória dos antepassados, a luz participa de um ciclo simbólico de chegada e partida. A tradição está associada à crença de que os espíritos dos familiares falecidos retornam para visitar o mundo dos vivos durante esse período.
É nesse contexto que as lanternas ganham uma função especial. De acordo com o Metropolitan Museum of Art, elas podem ser acesas para receber os espíritos dos antepassados e também para orientar seu retorno quando a celebração termina. A luz deixa de ser apenas algo que ilumina o ambiente e passa a funcionar simbolicamente como orientação.
Essa ideia muda completamente a maneira de observar uma lanterna. Em vez de representar somente alegria ou festividade, ela pode acompanhar um momento de lembrança e de despedida. A luz estabelece uma ligação simbólica entre dois momentos diferentes: a chegada esperada e o retorno.
Em algumas práticas relacionadas ao Obon, lanternas são colocadas sobre a água ao final das celebrações. Flutuando pela corrente, elas criam uma imagem diferente daquela produzida pelas lanternas suspensas ou carregadas pelas ruas. A luz permanece visível por algum tempo enquanto se afasta, reforçando visualmente a ideia de uma despedida.
Mais uma vez, o movimento é parte essencial do significado. No Yi Peng, a lanterna sobe em direção ao céu. No Obon, ela pode seguir pela água. Os dois gestos acontecem à noite e envolvem luzes que se afastam das pessoas, mas pertencem a contextos culturais diferentes e expressam ideias distintas.
Hiroshima e a transformação da lembrança em mensagem de paz
Em Hiroshima, no Japão, as lanternas flutuantes assumem outro significado. Elas estão ligadas à memória das pessoas que morreram na explosão da bomba atômica de 6 de agosto de 1945 e a uma tradição que passou a associar a luz à lembrança e à paz.
Segundo o Official Guide to Hiroshima, a tradição das lanternas flutuantes teria começado pouco depois da Segunda Guerra Mundial. Familiares e amigos de pessoas mortas na bomba atômica confeccionavam lanternas e as colocavam no rio como forma de homenagem. A própria fonte apresenta essa origem com uma formulação atribuída à tradição, por isso é mais adequado entendê-la como um relato histórico preservado localmente, e não como uma conclusão independente sobre todos os detalhes de sua origem.
Com o passar do tempo, a cerimônia passou a reunir uma dimensão memorial e uma mensagem de paz. As lanternas colocadas sobre a água formam pequenos pontos luminosos que seguem pela correnteza, criando uma imagem diferente daquela produzida pelas lanternas que permanecem suspensas ou sobem ao céu.
O movimento tem importância simbólica. A luz não permanece parada diante de quem participa da cerimônia. Ela se afasta lentamente, enquanto a lembrança permanece associada ao gesto. Nesse contexto, a lanterna pode ser entendida como uma forma material de homenagear pessoas que não estão mais presentes e de expressar um desejo de paz.
É interessante perceber como a mesma ideia visual pode assumir funções tão diferentes. Na China, as lanternas estão ligadas à reunião e à celebração do Ano-Novo Lunar. Na Coreia do Sul, a luz da lanterna de lótus está relacionada à sabedoria e à reverência budista. No Yi Peng, algumas lanternas são lançadas ao céu como parte de práticas associadas à renovação e aos desejos para o futuro. No Obon, elas podem acompanhar simbolicamente a chegada e a partida dos antepassados. Em Hiroshima, a luz está ligada à memória e à paz.
A mesma luz pode contar histórias diferentes
Esses exemplos revelam que não existe uma tradução universal para o símbolo da lanterna. A luz pode representar uma ideia de acordo com a história, a religião e os costumes da comunidade que a utiliza. O objeto permanece parecido, mas o significado muda quando muda o ritual ao seu redor.
Também é significativo observar o percurso de cada lanterna. Algumas permanecem junto das pessoas, outras são erguidas, lançadas ao céu ou colocadas sobre a água. O movimento transforma a luz em uma espécie de narrativa visual. Subir pode acompanhar um desejo; seguir pela água pode acompanhar uma despedida; permanecer acesa pode marcar uma homenagem ou uma prática religiosa.
Isso explica por que uma celebração noturna pode ser tão visualmente marcante sem depender apenas da decoração. As lanternas participam dos próprios gestos que dão sentido à cerimônia. Elas são carregadas, acesas, erguidas ou deixadas partir, e cada ação ajuda a transmitir aquilo que a tradição deseja preservar.
Existe ainda uma característica comum entre essas celebrações: a luz torna visível algo que não pode ser tocado. Reunião familiar, sabedoria, respeito, desejo de renovação, lembrança e paz são ideias abstratas. A lanterna oferece a elas uma forma concreta, pequena e fácil de reconhecer.
Uma pequena luz, muitos significados
As lanternas parecem objetos simples, mas sua presença em celebrações noturnas mostra como um elemento cotidiano pode adquirir significados profundos. Em diferentes tradições, elas ajudam a marcar encontros, expressar crenças, formular desejos, acompanhar despedidas e manter vivas determinadas memórias.
O mais curioso é que o significado não está apenas na luz. Ele está no gesto cultural construído ao redor dela. Uma lanterna que permanece entre as mãos conta uma história diferente daquela que sobe ao céu ou segue lentamente pela água. O objeto pode ser semelhante, mas a tradição transforma seu papel.
Talvez seja justamente por isso que as lanternas continuam despertando tanta atenção quando a noite chega. Elas não apenas iluminam o espaço ao redor. Em muitas culturas, carregam histórias que atravessaram gerações e transformam uma pequena chama ou um ponto luminoso em uma mensagem que pode ser compartilhada por uma comunidade inteira.
Referências
- Getty Research Institute. "Art & Architecture Thesaurus Full Record Display". Getty Research Institute. [s.d.]. Disponível em: https://www.getty.edu/vow/AATFullDisplay?find=&logic=¬e=&subjectid=300400803.
- Sung, Chungwhan. "Lotus Lantern Festival: From Rite to Festival". Journal of Eastern-Asia Buddhism and Culture. 2024. Disponível em: https://www.kci.go.kr/kciportal/ci/sereArticleSearch/ciSereArtiView.kci?sereArticleSearchBean.artiId=ART003115951.
- Nilubol, Vanthop. "Yi Peng: the Sky Lantern Festival". Thailand Foundation. 2023. Disponível em: https://thailandfoundation.or.th/518234-v2/.
- The Metropolitan Museum of Art. "Lighting a Hanging Lantern for the Obon Festival". The Metropolitan Museum of Art. [s.d.]. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/45265.
- Official Guide to Hiroshima. "Hiroshima Experience Program: Floating Lanterns". The Official Guide to Hiroshima. [s.d.]. Disponível em: https://dive-hiroshima.com/en/explore/3749/.
