Quando a temperatura despenca e a paisagem fica coberta de neve, sobreviver parece exigir um corpo grande, uma camada espessa de gordura ou algum outro recurso extraordinário. No entanto, alguns dos animais que enfrentam esses ambientes são pequenos o bastante para caber nas mãos. Seus corpos perdem calor com facilidade, mas eles encontraram maneiras engenhosas de lidar com um mundo em que o frio pode persistir durante meses.
A solução não está em uma única característica. Pelagem, abrigo, comportamento e metabolismo podem trabalhar juntos para manter esses pequenos mamíferos vivos. Em alguns casos, a própria neve, que parece tornar o ambiente ainda mais hostil, ajuda a criar um espaço protegido contra as temperaturas extremas da superfície.
A neve pode virar abrigo
Para um pequeno mamífero, ficar exposto ao ar gelado durante o inverno pode ser muito mais custoso do que parece. Quanto menor é o corpo, maior tende a ser a proporção entre sua superfície e seu volume. Isso favorece a perda de calor para o ambiente, criando um desafio constante para manter a temperatura corporal.
A pelagem ajuda a diminuir esse problema ao formar uma camada de isolamento ao redor do corpo. Mas alguns animais contam com uma proteção adicional que não está presa ao próprio organismo. Quando a neve se acumula sobre o solo, o espaço existente entre ela e a superfície pode oferecer condições bem diferentes das encontradas ao ar livre.
Essa camada protegida é conhecida como espaço subniveano. Em vez de enfrentar diretamente o vento e as temperaturas mais baixas da superfície, pequenos mamíferos podem utilizar túneis e cavidades sob a neve para se deslocar, procurar alimento e descansar. A neve, nesse cenário, deixa de ser apenas uma cobertura gelada e passa a fazer parte da arquitetura do abrigo.
Um mundo escondido sob a superfície
O espaço sob a neve pode funcionar como uma espécie de camada protetora. A neve contém ar entre seus cristais, e essa estrutura reduz a transferência de calor. Por isso, a temperatura junto ao solo pode permanecer consideravelmente mais favorável do que a do ambiente exposto acima da cobertura.
É nesse ambiente que o lemming-de-colar (Dicrostonyx groenlandicus) encontra uma das principais ferramentas para enfrentar o inverno do Alto Ártico. Esse pequeno roedor permanece ativo durante o inverno, movimentando-se, procurando alimento e construindo ninhos dentro da rede de espaços protegidos pela neve.
Seu modo de vida mostra por que a neve não pode ser analisada apenas como uma característica da paisagem. Para um animal que vive próximo ao solo, a espessura e a estrutura dessa cobertura podem determinar onde será possível encontrar proteção e alimento durante a estação mais difícil do ano.
O lemming que se prepara para a neve
O lemming-de-colar apresenta adaptações que acompanham a chegada do inverno. Sua pelagem muda para uma coloração branca, ajudando a combinar o animal com a paisagem coberta de neve. Ao mesmo tempo, suas garras dianteiras ficam maiores e mais adequadas para escavar, permitindo que ele atravesse a neve e construa passagens no ambiente subniveano.
Essa combinação transforma um animal minúsculo em um verdadeiro explorador de túneis. Enquanto a superfície pode apresentar vento intenso e temperaturas extremas, o lemming consegue utilizar o espaço protegido junto ao solo. Assim, não precisa simplesmente suportar o inverno exposto às condições mais severas, mas pode reorganizar seu modo de vida ao redor delas.
O detalhe mais interessante é que essa estratégia depende do próprio ambiente. Uma determinada quantidade e estrutura de neve pode oferecer proteção, enquanto alterações na cobertura podem modificar as condições encontradas pelo animal. Estudos realizados no Alto Ártico mostram que as características da neve estão relacionadas ao acesso a refúgios e às condições necessárias para a reprodução dos lemmings.
Quando a neve se torna mais rasa, compactada ou difícil de atravessar, o abrigo pode deixar de oferecer as mesmas condições. Para animais que dependem desse ambiente protegido, pequenas mudanças na estrutura da neve podem alterar o acesso aos túneis e aos locais de alimentação. No caso dos lemmings, a relação com a cobertura de neve é tão importante que suas características podem influenciar até mesmo as condições de reprodução.
O inverno, portanto, não é apenas uma batalha contra o frio. É também uma questão de encontrar o lugar certo para viver dentro de uma paisagem que muda conforme a neve se acumula, endurece ou desaparece. Mas existe uma estratégia ainda mais radical para enfrentar a estação gelada: reduzir drasticamente o funcionamento do próprio corpo.
Quando o corpo reduz drasticamente seu ritmo
O esquilo-terrestre-do-ártico (Urocitellus parryii) segue um caminho completamente diferente do lemming. Em vez de permanecer ativo durante o inverno, ele passa grande parte do ano em hibernação. Seu organismo entra em um estado de atividade extremamente reduzida, diminuindo o consumo de energia quando alimento e condições favoráveis são escassos.
Essa estratégia é especialmente impressionante porque não se trata simplesmente de dormir por vários meses. Durante a hibernação, a temperatura corporal do animal pode cair para valores que seriam extremamente perigosos para a maioria dos mamíferos. Em estudos, já foi registrada uma temperatura corporal de aproximadamente −2,9 °C.
Uma temperatura corporal abaixo de zero
À primeira vista, parece impossível um mamífero continuar vivo quando seu corpo fica mais frio do que o ponto de congelamento da água. O segredo está na maneira como o organismo controla esse estado. O esquilo entra em períodos de torpor profundo, reduzindo intensamente seu metabolismo e diminuindo a quantidade de energia necessária para manter as funções vitais.
Esses períodos não permanecem necessariamente iguais durante toda a hibernação. O animal pode passar semanas em torpor e depois elevar novamente sua temperatura corporal. Esse reaquecimento exige uma grande quantidade de energia, fazendo parte de um ciclo que se repete ao longo do período de hibernação.
O contraste é extraordinário. Em um momento, o esquilo pode apresentar uma temperatura corporal próxima de valores normais para um mamífero ativo. Depois, seu organismo reduz drasticamente o ritmo e permite que a temperatura caia a níveis extremos. É como se o corpo possuísse um modo de economia de energia capaz de permanecer ligado durante uma longa viagem sem precisar funcionar em potência máxima.
Sobreviver quando quase não há comida
A hibernação também resolve outro problema do inverno ártico: a escassez de alimento. Em vez de depender de encontrar comida regularmente durante os meses mais difíceis, o esquilo acumula reservas energéticas antes da chegada da estação fria.
Quando o metabolismo diminui, o organismo passa a gastar essas reservas em um ritmo muito mais lento. Assim, um período que seria difícil de atravessar procurando alimento pode ser enfrentado dentro da toca, com o corpo reduzindo suas necessidades energéticas ao mínimo possível.
Existe, porém, uma curiosidade que torna essa estratégia ainda mais complexa. O esquilo não permanece completamente imóvel durante todo o período de hibernação. Entre episódios prolongados de torpor, ele pode elevar novamente a temperatura corporal antes de retornar ao estado de atividade metabólica extremamente baixa.
Esses intervalos mostram que a hibernação não é simplesmente uma longa pausa. É um processo fisiológico cuidadosamente controlado, no qual o animal alterna estados de atividade corporal muito diferentes. Para um pequeno mamífero vivendo no Ártico, economizar energia pode ser tão importante quanto encontrar alimento.
Sobreviver sem dormir o inverno inteiro
Se o esquilo-terrestre-do-ártico enfrenta o inverno reduzindo drasticamente sua atividade, o pika-americano (Ochotona princeps) escolhe uma estratégia quase oposta. Ele não hiberna. Mesmo quando a paisagem fica coberta de neve, continua ativo e precisa encontrar uma maneira de obter energia durante a estação fria.
Seu segredo começa muito antes de o inverno tomar conta das montanhas. Durante os meses mais favoráveis, o pika coleta vegetação e a organiza em reservas próximas ao seu abrigo. Quando chega a época em que encontrar plantas frescas se torna difícil, essas reservas funcionam como uma despensa preparada com antecedência.
Uma despensa escondida entre as rochas
O pika vive associado a ambientes rochosos de regiões montanhosas. Entre as pedras, encontra locais que oferecem proteção e onde pode guardar a vegetação recolhida. Essa combinação de abrigo e alimento permite que o pequeno mamífero atravesse o inverno sem depender da hibernação.
Sua pelagem espessa também contribui para enfrentar as baixas temperaturas, enquanto seu metabolismo elevado ajuda a manter a produção de calor. Em vez de desligar boa parte de suas atividades durante meses, o pika permanece preparado para continuar vivendo em um ambiente frio, desde que consiga contar com abrigo e reservas suficientes.
Nem toda adaptação está dentro do corpo
O frio também modifica a paisagem e muda a relação entre os animais e seus predadores. Por isso, algumas adaptações importantes não servem diretamente para conservar calor. Elas ajudam o animal a se tornar menos perceptível justamente quando o ambiente muda de aparência.
O arminho (Mustela erminea) oferece um exemplo marcante. Em regiões onde a neve faz parte do inverno, sua pelagem passa por uma transformação sazonal. O pelo que apresenta coloração marrom durante a época mais quente dá lugar a uma pelagem branca durante o inverno.
Quando a paisagem muda de cor
A transformação faz com que o arminho fique muito mais parecido com o cenário nevado. Isso não aquece seu corpo, mas pode ajudar na camuflagem, uma vantagem importante para um pequeno predador que precisa se aproximar de suas presas sem ser facilmente percebido.
É uma lembrança de que sobreviver em regiões frias não significa apenas impedir que o corpo perca calor. Também significa ajustar comportamento, aparência e uso do ambiente às condições que surgem ao longo do ano.
O lemming utiliza a neve como abrigo e permanece ativo em seus túneis. O esquilo-terrestre-do-ártico reduz drasticamente seu metabolismo e atravessa longos períodos de hibernação. O pika permanece acordado e transforma a vegetação coletada anteriormente em uma reserva de inverno. O arminho muda a própria aparência para acompanhar a transformação da paisagem.
São soluções muito diferentes para um mesmo problema: continuar existindo quando o frio transforma o ambiente. Em vez de depender de uma única característica extraordinária, esses pequenos mamíferos combinam corpo, comportamento e ambiente de maneiras surpreendentemente eficientes.
Quando o frio vira parte da estratégia de sobrevivência
Observar esses animais revela uma ideia simples, mas poderosa: um ambiente extremo não é enfrentado da mesma maneira por todas as espécies. Para alguns pequenos mamíferos, a neve pode ser um abrigo. Para outros, é necessário economizar energia durante meses ou guardar alimento antes que ele desapareça.
O que parece uma paisagem congelada e pouco favorável à vida também pode esconder túneis, tocas e pequenas reservas cuidadosamente preparadas. Sob a superfície branca, ou dentro de um corpo que desacelerou quase ao limite, existem estratégias diferentes para atravessar uma das estações mais exigentes do planeta.
Talvez a verdadeira surpresa esteja justamente aí: em vez de simplesmente resistirem ao inverno, esses pequenos mamíferos aprenderam, ao longo da evolução, a fazer do próprio frio uma parte de sua estratégia de sobrevivência.
Referências
- Rachel Demers; Émilie Desjardins; Dominique Fauteux; François Vézina; Andrew Tam; Dominique Berteaux. "Spring fever: collared lemmings warm up above the snow despite predation risk". Frontiers in Ecology and Evolution. 2025. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/ecology-and-evolution/articles/10.3389/fevo.2025.1543635/full.
- Mathilde Poirier; Gilles Gauthier; Florent Dominé; Dominique Fauteux. "Demography of lemmings in response to changing snow conditions in the High Arctic". Ecology. 2025. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12457247/.
- University of Michigan. "Spermophilus parryii (Arctic ground squirrel) | INFORMATION". Animal Diversity Web. [s.d.]. Disponível em: https://animaldiversity.org/accounts/Spermophilus_parryii/.
- University of Alaska. "Did you know that for 30+ years, UAF has been at the forefront of studying how Arctic ground squirrels endure Alaska’s brutal winters?". University of Alaska. 2024. Disponível em: https://www.alaska.edu/news/did-you-know/2024-did-you-know-arctic-ground-squirrel-30-years-research.php.
- Michael Hansen; Anna Mangan; Tara Chestnut. "American Pika at Mount Rainier National Park: Keeping an eye on one of Mount Rainier's most climate sensitive species". National Park Service. 2020. Disponível em: https://www.nps.gov/articles/american-pika-at-mount-rainier.htm.
- Committee on the Status of Endangered Wildlife in Canada. "COSEWIC Assessment and Status Report on the Ermine, haidarum subspecies (Mustela erminea haidarum) in Canada - 2015". Government of Canada. 2015. Disponível em: https://www.canada.ca/en/environment-climate-change/services/species-risk-public-registry/cosewic-assessments-status-reports/ermine-haidarum-mustela-2015.html.
