Imagine caminhar por uma floresta silenciosa e, dias depois, perceber que algumas plantas não estão exatamente no mesmo lugar. Não porque alguém as moveu, nem por causa do vento ou de um animal curioso, mas porque, de algum modo, elas próprias avançaram. A ideia soa estranha à primeira vista. Plantas, afinal, costumam ser o símbolo máximo da imobilidade.
Ao observar com mais atenção, no entanto, a natureza revela um jogo sutil de paciência e estratégia. Certas espécies parecem desafiar nossa noção de movimento. Elas não dão passos visíveis nem mudam de lugar da noite para o dia, mas, ao longo do tempo, deixam pistas claras de que algo ali se desloca. Lentamente, quase em segredo, essas plantas surpreendem quem aprende a olhar de perto.
O que significa “andar” para uma planta?
Antes de falar em plantas que andam, é preciso ajustar o significado da palavra. Para nós, andar envolve pernas, músculos e decisões conscientes. Para as plantas, o movimento segue outras regras. Ele acontece sem pressa, sem intenção aparente e quase sempre fora do nosso campo imediato de percepção.
No mundo vegetal, “andar” costuma ser uma metáfora para diferentes processos biológicos. Um deles é o crescimento direcional. A planta não se move inteira, mas estende partes de si em busca de luz, água ou espaço. Outro é a propagação, quando novos brotos surgem conectados à planta original e, com o tempo, passam a ocupar áreas vizinhas.
Há também o deslocamento geracional. Nesse caso, o indivíduo original permanece onde nasceu, mas seus descendentes brotam um pouco mais adiante. Se alguém observar o mesmo local por anos ou décadas, terá a impressão de que a planta “caminhou”, quando na verdade foi sua família que avançou.
Esses movimentos não são aleatórios. Eles obedecem a estímulos do ambiente, como a luz do sol, a umidade do solo ou a abertura de espaço após a queda de uma árvore. É como se a planta explorasse o terreno ao redor usando extensões do próprio corpo. Não há pressa, mas há método.
Pequenos passos verdes: a samambaia que caminha
Um dos exemplos mais fascinantes desse tipo de movimento vem da samambaia-andante (Asplenium rhizophyllum). À primeira vista, ela parece uma samambaia comum, com folhas longas e estreitas. O segredo está nas pontas dessas folhas.
À medida que crescem, as extremidades das frondes se inclinam em direção ao solo. Quando tocam uma superfície adequada, geralmente úmida e sombreada, algo curioso acontece. A ponta da folha cria raízes e dá origem a uma nova planta. Com o tempo, a fronde original pode secar, deixando a nova samambaia um pouco mais adiante.
O resultado lembra uma sequência de pegadas verdes no chão da floresta. Cada nova planta marca um pequeno avanço. Não é um salto, nem um deslocamento rápido. É um caminhar feito de muitos gestos mínimos, repetidos ao longo de meses ou anos.
Esse comportamento é uma solução elegante para ambientes estáveis, como florestas sombreadas. Em vez de depender apenas do vento para espalhar esporos, a samambaia garante que seus descendentes surjam em locais semelhantes ao original, onde as chances de sobrevivência são maiores.
A marcha delicada das flores: a íris que anda
Em jardins e áreas tropicais, outra planta chama atenção por um comportamento parecido. Conhecida como íris-andante (Neomarica, em algumas classificações também Trimezia), ela produz flores vistosas sustentadas por hastes longas e arqueadas. Após a floração, a surpresa aparece no topo dessas hastes.
Pequenas mudas começam a se formar onde antes havia flores. Essas mudas crescem enquanto ainda estão presas à planta-mãe. Com o peso, a haste se curva lentamente até tocar o solo. Quando isso acontece, a muda cria raízes e se estabelece ali mesmo, alguns passos adiante.
O processo lembra alguém esticando o braço para colocar um objeto mais à frente. A planta não se desloca de uma vez, mas projeta sua próxima geração para um novo ponto. Com o passar do tempo, uma sequência de íris pode surgir, formando uma linha suave que sugere movimento.
Vale observar que nem todas as espécies desse grupo apresentam esse comportamento com a mesma intensidade. Ainda assim, nas que o exibem, o efeito visual é suficiente para inspirar o nome popular e despertar curiosidade.
Esses exemplos mostram que o movimento das plantas não é ilusão nem exagero poético. Ele existe, apenas segue um ritmo diferente do nosso. E, à medida que avançamos nessas histórias verdes, fica claro que algumas lendas botânicas vão ainda mais longe, misturando observação, mito e ciência.
A lenda da palmeira que anda
Entre todas as histórias sobre plantas que se movem, poucas são tão intrigantes quanto a da chamada palmeira que anda pela floresta amazônica. Relatos populares descrevem uma árvore alta, com raízes visíveis acima do solo, capaz de “caminhar” lentamente em busca de luz, afastando-se de áreas sombreadas ao longo dos anos.
A imagem é poderosa. Uma árvore inteira mudando de lugar, passo a passo, parece saída de um conto fantástico. Não por acaso, essa ideia se espalhou em livros, documentários e conversas informais, alimentando a reputação quase mítica da palmeira conhecida como Socratea exorrhiza.
Quando cientistas começaram a observar essa espécie com mais atenção, a história ganhou novos contornos. A palmeira realmente possui raízes longas e arqueadas, chamadas de raízes em estacas, que se elevam acima do solo antes de penetrar na terra. À primeira vista, elas lembram pernas fincadas no chão, reforçando a sensação de movimento.
No entanto, estudos de campo não encontraram evidências consistentes de que essas raízes funcionem como instrumentos de locomoção ativa. Elas não se retraem de um lado nem avançam de outro de forma coordenada. O consenso atual indica que seu papel principal está ligado à estabilidade em solos encharcados ou instáveis, à sustentação do tronco e à adaptação a distúrbios naturais, como deslizamentos ou quedas parciais.
A ideia de que a palmeira se desloca alguns centímetros por ano perdeu força à medida que medições cuidadosas falharam em confirmar esse avanço. O que ocorre, na maioria dos casos, é uma ilusão de movimento. Raízes antigas podem morrer, enquanto novas surgem em posições ligeiramente diferentes, criando a impressão de que o tronco mudou de lugar.
Isso não torna a Socratea exorrhiza menos interessante. Pelo contrário. Ela mostra como formas incomuns podem alimentar narrativas fascinantes e como a investigação científica, ao observar com paciência, esclarece o fenômeno sem esvaziar seu encanto.
Quando não é o indivíduo que anda, mas a colônia
Se algumas plantas não se movem como imaginamos, outras desafiam nossa própria noção de indivíduo. Em certos casos, aquilo que vemos como várias plantas separadas é, na verdade, um único organismo espalhado pelo espaço.
É o que ocorre com algumas espécies do deserto, como o arbusto conhecido como creosote. Ao longo do tempo, a planta original produz brotações ao redor de si. O centro pode morrer, enquanto a periferia permanece viva e continua se expandindo. O resultado é um anel vegetal que cresce lentamente para fora.
Observado por gerações humanas, esse anel parece migrar pelo terreno. Não porque algo esteja caminhando, mas porque a vida se desloca de forma gradual e contínua. Cada nova brotação ocupa um ponto um pouco mais distante do centro original.
Algumas dessas colônias clonais são extremamente antigas. Estimativas sugerem idades de milhares de anos, obtidas a partir de taxas médias de crescimento ao longo do tempo. Isso transforma o avanço quase imperceptível dessas plantas em uma espécie de viagem silenciosa através dos séculos.
Fenômeno semelhante ocorre em florestas frias com certas espécies de álamo. O tronco que vemos hoje pode ser apenas um dos muitos brotos ligados a um mesmo sistema de raízes subterrâneas. Enquanto troncos individuais nascem e morrem, a colônia continua se expandindo, dando a impressão de que a floresta inteira se move lentamente.
Estolões, rizomas e passos invisíveis
Além das colônias clonais, muitas plantas utilizam estruturas especializadas para avançar pelo espaço. Estolões são hastes finas que crescem rente ao solo, como ocorre no morangueiro. Em pontos estratégicos, eles criam raízes e dão origem a novas plantas, conectadas à original como contas de um colar.
Rizomas seguem uma lógica semelhante, mas crescem sob a terra. Plantas como o gengibre e diversas gramíneas usam esse recurso para explorar áreas vizinhas sem depender exclusivamente de sementes. Para quem observa apenas a superfície, parece que novas plantas surgem espontaneamente em locais inesperados.
Esses mecanismos tornam o “andar” vegetal ainda mais discreto. Não há um ponto inicial e um destino claramente separados. Há um corpo que se estende, se fragmenta e se reorganiza continuamente, sempre em diálogo com o ambiente.
Ao reunir esses exemplos, fica claro que o movimento das plantas assume muitas formas. Algumas projetam folhas, outras lançam mudas, outras ainda expandem famílias inteiras sob nossos pés. E, embora tudo aconteça em silêncio, esse deslocamento lento ajuda a moldar paisagens inteiras ao longo do tempo.
Como as plantas realizam esse movimento lento
Depois de conhecer exemplos tão diferentes, surge uma pergunta natural. O que, afinal, permite que as plantas ocupem novos espaços sem sair do lugar de forma visível? A resposta está em processos biológicos simples, repetidos com enorme constância ao longo do tempo.
Um dos principais motores desse avanço é o crescimento orientado. As plantas respondem à luz, à gravidade e à umidade do ambiente. Quando um caule se inclina em direção ao sol ou uma raiz cresce em busca de água, não ocorre um deslocamento do organismo inteiro, mas uma mudança contínua de forma. Somadas ao longo dos anos, essas pequenas alterações resultam na ocupação de áreas vizinhas.
Outro fator essencial é o enraizamento adventício. Certas partes da planta, como caules, ramos ou folhas, têm a capacidade de criar raízes quando encontram condições favoráveis. É isso que permite à samambaia-andante e à íris-andante estabelecerem novos pontos de crescimento adiante da planta original, sem que ela precise “mudar de lugar”.
Há ainda o papel dos distúrbios naturais. A queda de árvores, enchentes ou deslizamentos abrem clareiras e criam oportunidades. Plantas capazes de se espalhar por estolões, rizomas ou brotações respondem rapidamente a esses eventos, ocupando o espaço disponível antes de outras espécies. É um avanço silencioso, guiado pelas circunstâncias.
Embora esse ritmo seja lento aos nossos olhos, para as plantas ele é perfeitamente adequado. Seus “passos” são medidos em semanas, meses ou anos, sempre em sintonia com o ambiente ao redor.
Por que esse “andar” importa para a natureza
O avanço gradual das plantas não é apenas uma curiosidade. Ele influencia diretamente a forma como os ecossistemas se organizam e se mantêm. Ao ocupar novos espaços, uma espécie pode ajudar a estabilizar o solo, modificar a incidência de luz e criar abrigo para outros organismos.
Em ambientes extremos, como desertos, áreas alagadas ou regiões sujeitas a perturbações frequentes, essa capacidade pode ser decisiva para a sobrevivência. A expansão clonal permite que a planta explore microambientes mais favoráveis sem depender exclusivamente da germinação de sementes, que muitas vezes falha em condições adversas.
Para a biodiversidade, esses movimentos lentos criam paisagens em mosaico. Áreas mais jovens e mais antigas convivem lado a lado, oferecendo diferentes recursos para insetos, aves e microrganismos. O andar silencioso das plantas contribui para a diversidade e a resiliência dos ambientes naturais.
No cotidiano humano, compreender esses processos também tem valor prático. Jardineiros e agricultores usam o conhecimento sobre estolões, rizomas e brotações para controlar a expansão de certas espécies ou incentivá-la quando o objetivo é cobrir rapidamente um espaço.
Onde a imobilidade é só aparência
Plantas que “andam” não desafiam as leis da biologia. Elas ampliam nossa forma de enxergar o movimento na natureza. Mostram que deslocar-se nem sempre envolve velocidade ou passos visíveis, mas adaptação contínua e persistência ao longo do tempo.
Ao projetar folhas que enraízam, lançar mudas à frente ou expandir colônias inteiras sob o solo, essas espécies transformam o tempo em aliado. O que hoje parece imóvel pode, amanhã, estar alguns centímetros adiante, o suficiente para redesenhar uma paisagem ao longo dos anos.
Observar esse avanço lento convida à paciência e à atenção. Ele nos lembra que a natureza opera em escalas diferentes das nossas, onde pequenas ações repetidas constroem grandes transformações.
Da próxima vez que você passar por um jardim, uma trilha ou mesmo um canteiro esquecido, vale a pergunta. Quantas dessas plantas aparentemente paradas já começaram, sem que percebêssemos, a sua própria jornada silenciosa?
Referências
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